segunda-feira, 22 de maio de 2017

Turbulência política deve reduzir crescimento no ano que vem

A crise política que se instalou no país nos últimos dias pode atrasar a retomada do crescimento econômico. Nas contas do analista Marcos Casarin, da Oxford Economics, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ficará pelo menos 0,2 ponto percentual abaixo do esperado no ano que vem por causa da turbulência causada pela delação premiada da JBS, que caiu como uma bomba sobre o governo do presidente Michel Temer. Segundo Casarin, o PIB poderia crescer 2,8% em 2018, mas deve avançar 2,6%, o que considera uma diferença “significativa”. Para este ano, sua projeção continua sendo expansão de 0,2%.

A estimativa de Casarin se baseia principalmente nos efeitos de duas variáveis: juros e câmbio. A partir da reação do mercado financeiro, ele estimou alta no chamado risco-país, espécie de seguro contra calote, que sobe em momentos de instabilidade, e desvalorização do real frente ao dólar. Na prática, a combinação desses dois fatores interferiria nas expectativas de inflação e no comportamento dos juros. Assim, empresas e famílias ficariam mais cautelosos e deixariam de gastar, fazendo a economia perder fôlego. 

O economista explicou que a simulação não leva em consideração uma eventual queda de confiança. Nesse caso, o cenário poderia ser pior.

— Preferi não poluir a simulação com o choque de confiança negativa porque não acho que será uma coisa duradoura. Agora, se o Temer quiser adotar uma postura estilo Dilma, aí realmente o cenário pode mudar — diz Casarin, lembrando que o processo de impeachment de Dilma Rousseff durou nove meses.

O fator tempo é fundamental para a recuperação, destaca Casarin. Em sua avaliação, caso o impasse sobre o futuro de Temer se prolongue por muito tempo, a situação vai se agravar, trazendo risco de recessão.

— É óbvio que, se isso desencadear uma crise de confiança profunda, voltaremos para a recessão. A recuperação é muito frágil. Qualquer episódio mais duradouro, de um, dois ou três meses, pode aumentar esse efeito — avalia Casarin.

Essa análise é compartilhada pelo economista Alberto Ramos, analista de América Latina no banco americano Goldman Sachs. Segundo ele, o que importa não é quem entrará no governo, e sim que a chamada governabilidade — capacidade de aprovar medidas no Congresso — seja garantida:

— Não depende de “Temer fica, Temer vai”. Qualquer que seja a solução, é importante que se recupere a governabilidade. Não interessa o nome.

Tanto Ramos como Casarin contam que a crise política é vista com cautela no exterior.

— Há muita curiosidade, muitas perguntas, tentando entender quais os cenários possíveis — diz Ramos.

ESTRANGEIROS PENSAM NO LONGO PRAZO
Para Ramos, nem mesmo os nomes da equipe econômica são tão importantes assim no cenário atual. O que mais preocupa são as características de quem vier a assumir esses cargos.

— Quem está na equipe econômica deve ter a capacidade técnica e as convicções certas. E capacidade de implementar. Todo mundo achava o Joaquim Levy muito competente, mas a capacidade de implementação era mínima — diz. — Não interessa se é o presidente A ou B, se é o ministro A ou B. Quem conseguir continuar a formular e implementar, acho que o mercado reage bem. Não é uma coisa pessoal.

Casarin, da Oxford Economics, conta que tinha uma apresentação sobre América Latina para investidores, em Londres, no dia seguinte à revelação, pelo GLOBO, da delação da JBS. Segundo ele, houve muita curiosidade, mas o clima não era de desespero. Casarin ressalta que os investidores estrangeiros pensam a longo prazo:

— Investidor brasileiro ganha dinheiro no curto prazo, operando a curva de juros. O estrangeiro faz investimentos de longo prazo. A maioria das casas aqui compra ativos e espera.

Com relação ao efeito sobre o câmbio, Ramos considera que ainda é cedo para dizer como os mercados reagirão:


— Ou vai para R$ 3,50 porque a coisa piora, ou volta para a casa dos R$ 3,10.

O GLobo

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