terça-feira, 2 de julho de 2019

Afinal o que os jornalistas do The Intercept estão fazendo é jornalismo ou não?

Há uma discussão muito grande no País sobre os conteúdos dos vazamentos de conversas em redes sociais privadas envolvendo os procuradores da Lava-Jato e o ex-juiz Sérgio Moro.

O site The intercept Brasil vem divulgando este conteúdo e por isso mesmo seus editores têm sido alvo de ataques os mais diversos, inclusive do próprio ex-juiz Sérgio Moro que identifica os jornalistas como aliados de criminosos.

O ponto a ser discutido é se o que os jornalistas do The Intercept estão fazendo é jornalismo ou não.

O fato jornalístico é todo aquele acontecimento que tem repercussão na vida das pessoas em geral e que merecem ser informados para o devido conhecimento.

O jornalista tem obrigação de reportar os fatos que chegam ao seu conhecimento e tem essa repercussão na sociedade em geral.

A Constituição assegura ao jornalista o direito de preservar sua fonte, ou seja, se o informante não quer ser identificado perante o público, o jornalista tem garantia constitucional de preservação da fonte.

Quanto à possibilidade de a fonte ter obtido as informações que repassou ao jornalista de forma ilegal, não cabe ao jornalista responder por isso. Ele não tem obrigação sobre isso.

É bom lembrarmos aqui que boa parte dos fatos que chegaram ao conhecimento público durante a operação Lava-Jato foram oriundas de vazamentos ilegais. Processos que estavam sob sigilo, áudios protegidos, autoridades que por lei não podiam ser gravadas e captações obtidas sem a devida autorização legal.

Ninguém se importou muito se a fonte da notícia obteve de forma ilegal os áudios e documentos que renderam as principais manchetes da Lava-Jato. O que interessava era o conteúdo relevante.

O próprio ex-juiz Sérgio Moro disse em entrevista a Pedro Bial depois da divulgação do áudio de Lula e Dilma que o importante ali não era a forma de obtenção do áudio, mas o seu conteúdo.

Voltando então para a questão do The Intercept e o jornalismo que o site está fazendo. Os editores do site estão protegidos por lei e estão fazendo jornalismo. Eles têm obrigação profissional de reportarem os fatos que chegaram ao seu conhecimento.

O que é mais importante nesse momento é uma grave ameaça que se faz a liberdade de imprensa quando se tenta de toda forma calar o The Intercept ameaçando seus editores e seus familiares.

Não estou aqui nem discutindo o conteúdo das conversas.

Sim, porque é estranho a falta de investigação dos órgãos federais sobre os conteúdos divulgados, a investigação está restrita apenas a identificar quem vazou os áudios. Ninguém está preocupado como de repente os muitos promotores citados nos vazamentos e o próprio ex-juiz, todos sem exceção, relatam que apagaram tudo dos seus celulares e nenhum deles se dispôs a entregar o celular para a devida análise técnica.

O eixo da discussão é ardilosamente desviado para questionar os jornalistas e suas revelações. A estratégia é desqualificar a fonte e esquecer o conteúdo. Não foi assim que funcionou na Lava-Jato. Os promotores e o e ex-juiz estão experimentando a própria estratégia da qual antes se beneficiaram.

Chamo a atenção para uma discussão do que é importante, o conteúdo divulgado. Se houve ou não conluio do juiz com os promotores para direcionar a Lava-Jato no rumo de determinados alvos.

Combater a corrupção no Brasil é importante, necessário. Mas, isso não pode ser feito à margem da lei.

Blog do Neto Queiroz

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