quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Grupo cobra melhoria em políticas públicas voltadas à saúde mental


A Assembleia Legislativa discutiu, na tarde desta terça-feira (10), ações necessárias para o combate ao suicídio no Rio Grande do Norte. Ouvindo autoridades e especialistas no assunto, a audiência pública proposta pelo deputado Hermano Morais pontuou a necessidade de que se trabalhe para ampliação ao atendimento aos transtornos mentais, esclarecer a população sobre a importância de se respeitar e tratar as doenças da mente.

Com o auditório lotado, o deputado Hermano Morais falou sobre a importância da discussão, que tratou sobre o "Setembro Amarelo: mês de prevenção ao suicídio". Para o parlamentar, a Casa Legislativa cumpre o o seu papel ao ampliar o debate sobre o tema, colaborando com a desmistificação acerca das mortes por suicídio.

"Observamos diariamente dados alarmantes, inclusive recentemente, que é a segunda maior causa de mortes entre jovens entre 15 e 29 anos no mundo. É preciso a conscientização para que tenhamos o combate ao suicídio, já que é uma situação que está tomando proporções preocupantes. É um fenômeno que precisa ser tratado também pela sociedade como um problema de saúde público, que afeta pessoas de diferentes origens, faixas etárias, sociais, e todos gêneros e orientações sexuais", disse Hermano Morais.

De acordo com dados coletados pelo Observatório da Violência Letal Intencional do Rio Grande do Norte (Obvio), em estudos realizados em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), entre 2011 e 2019, a maior parte das pessoas que perderam a vida devido ao suicídio era formada por agricultores, aposentados, estudantes, trabalhadores da construção civil e desempregados. Pelo levantamento, só no ano de 2018, a taxa de suicídios por 100 mil habitantes no RN ficou em 6 por 100 mil.

No locais dos suicidios, 82,6% ocorreram dentro da própria residência da vítima, 5,6% dentro de outras áreas edificadas, 2,2% na Ponte Newton Navarro, enquanto 1,9% morreram em árvores em áreas de mata. Segundo o levantamento, os homens são 82,8% dos das vítimas. As principais formas de morte são por enforcamento (67,8%), envenenamento (9,7%), uso de arma de fogo (8,2%), precipitação de pontes (2,4%) e precipitação de prédios (1,4%).

Participando da discussão, o psiquiatra Quirino Cordeiro Júnior, que é o atual secretário nacional de Cuidado e Prevenção às Drogas do Ministério da Cidadania, falou sobre a necessidade de se ampliar a rede de atendimento às pessoas com doenças da mente. Ele falou sobre ações do Governo Federal nos últimos anos para a ampliação nas ofertas de atendimento a pessoas com problemas psíquicos, mas lamentou ainda haver uma baixa oferta para receber essas pessoas.

"Hoje temos dificulades em internar o indivíduo que diz que vai se matar e isso é um problema seríssimo. Estamos sem ter como atender essas pessoas". O Brasil possui aproximadamente 20 mil leitos em hospitais psiquiátricos, uma tava de aproximadamente 0,1 leitos a cada mil habitantes, o que é o um terço do mínimo de leitos que deveria possuir, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Tem que se ter os espaços para internar as pessoas quando elas se colocam ou colocam outras pessoas em risco, e não podemos aceitar mais qualquer tipo de abordagem aos nossos pacientes", disse Quirino Cordeiro, defendendo o tratamento especializado.

Também na sua fala, o secretário explicou que é importante se controlar os meios de acesso ao suicídio. "Não é verdade essa máxima de que 'quem quer tirar a própria vida, se não tirar aqui, tira em outro lugar'. Estudos internacionais mostram que isso não é comum, uma pessoa ter uma tentativa de suicídio frustrada e seguir imediatamente em busca de outra", disse.

"Tenho que parabenizar o deputado Hermano Morais por trazer para a Assembleia um debate tão importante, porque são resultados alarmantes que estamos enfrentando. Temos que mudar os caminhos porque o atual não está dando o resultado", finalizou.

Psicóloga da UFRN, Milena Câmara defendeu que é preciso que a sociedade comece a enxergar os transtornos da mente como doenças. No entendimento da psicóloga, ainda é difícil para a população saber o que fazer e até aceitar uma doença da mente. "Muitas vezes, por negarmos essa possibilidade, fica ainda mais complicado de observar", disse.

Para Milena Câmara, é preciso se acreditar nos sinais dados pela doença e tratar os transtornos da mente de maneira especializada. "Quando ouvimos alguém falar sobre suicídio, temos uma responsabilidade e ajudar. Todos nós podemos morrer por suicídio, adoecer psiquicamente e muitas vezes nos descuidamos. Quem aqui garante que não vai ter câncer, um problema cardíaco? Adoecer psiquicamente também é uma possibilidade. Quando mudarmos esse paradigma, acreditaremos em alguém que nos diz que quer morrer", disse a psicóloga.

No entendimento de Hermano Morais, a discussão foi proveitosa e contribuiu para o esclarecimento sobre o tema. "Essa responsabilidade trabalhar pela redução dos suicídios pertence a todos nós. Convergimos no entendimento de que precisamos melhorar as políticas de saúde mental. Temos um passivo grande e precisamos acolher essas pessoas. E precisamos estar juntos", disse Hermano.

ALRN

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