Entre os fenômenos que contribuem para a intensificação desses eventos está o El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico. Embora seja um fenômeno natural e recorrente, seus efeitos podem potencializar os impactos das mudanças climáticas, alterando os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta.
No Brasil, o El Niño costuma estar associado ao aumento das temperaturas, à ocorrência de secas em parte das regiões Norte e Nordeste e ao excesso de chuvas no Sul do país. Esse cenário amplia os desafios para a população e para diferentes setores da economia, conforme explica a professora e pesquisadora da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), Ana Luiza Saraiva.
“Ao que tudo indica, possivelmente o El Niño este ano será muito forte, por isso está chamando tanta atenção. Ele vai mexer na dinâmica atmosférica do nosso território e isso exige grandes desafios e planejamento estratégico, já que os efeitos são diferentes em cada região do país”, afirma.
O primeiro Boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado recentemente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indica que a previsão climática para o trimestre entre julho e setembro de 2026 aponta, de forma geral, maior probabilidade de chuvas acima da média em áreas da Região Sul e de chuvas abaixo da média no centro-norte do país.
As análises também indicam alta probabilidade de temperaturas acima da média durante o segundo semestre, condição que pode favorecer a ocorrência de ondas de calor e aumentar o risco de incêndios florestais em diferentes regiões brasileiras.
No Rio Grande do Norte, os efeitos desse cenário também acendem um alerta. Ana Luiza Saraiva explica que as características climáticas do segundo semestre favorecem a propagação de incêndios e exigem cuidados redobrados da população. “Nesse segundo semestre, temos uma redução nas chuvas na região, aumento dos ventos e nossa vegetação tende a perder suas folhas. Por isso, devemos evitar ao máximo qualquer foco de queimada, pois ele pode se espalhar rapidamente e tomar grandes proporções”, frisa.
Além dos impactos ambientais, Ana Luiza Saraiva chama atenção para os reflexos desse cenário na saúde da população. Segundo a pesquisadora, o estresse térmico - condição em que o organismo é exposto a temperaturas extremas e perde a capacidade de regular sua temperatura interna - pode provocar desidratação, queda de pressão, cansaço e, em casos mais graves, levar à morte.
“O estresse térmico é silencioso. A pessoa sente um desconforto, mas demora a entender sua causa. Já existem estudos que indicam a relação entre ondas de calor e o aumento da incidência de AVC e infarto. Seria como um gatilho para pessoas com predisposição”, explica.
Diante desse cenário, ela defende o monitoramento contínuo das mudanças climáticas e a adoção de políticas públicas permanentes para reduzir seus impactos. “É importante trazer alertas e orientar as pessoas, e essas ações não podem ser esporádicas; precisam fazer parte de um planejamento climático permanente nas esferas municipal, estadual e federal”, conclui.
DeFato
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Reflita, analise e comente