sexta-feira, 12 de junho de 2020

Na corrida pela vacina para covid-19, apenas um estudo está na fase de testagem maciça

A parceria do Instituto Butantã com o laboratório chinês Sinovac, anunciada na quinta-feira pelo governo de São Paulo, para testar e produzir uma vacina contra o coronavírus assim que ela existir, representa mais uma etapa da corrida pela vacina no mundo. Entre as 136 candidatas em estudo atualmente, dez estão em fase clínica, com testes em humanos, e apenas uma já se encontra na fase 3, o momento de testagem maciça. Mesmo com o ritmo acelerado das pesquisas, especialistas preveem que campanhas de vacinação, depois que o imunizante for encontrado, devem ficar para o ano que vem.

Atualmente, três pesquisas – Reino Unido, China e Estados Unidos – lideram a corrida. Cientistas explicam que dizer que uma vacina é a mais promissora ou é a mais adiantada significa que ela se mostrou eficaz em mais etapas dos testes pré-clínicos (animais) e clínicos (humanos). Mas não significa necessariamente que ela seja a mais próxima de ser bem-sucedida. “Quanto mais vacinas investigadas em estágios avançados, melhor. Ela vai ser necessária no mundo todo. Existe muita pressa, mas tudo tem de ser feito de acordo com os protocolos de pesquisa”, opina a infectologista Rosana Richtmann do Instituto de Infectologia Emilio Ribas. 

A vacina da Universidade de Oxford, no Reino Unido, está na fase mais avançada das testagens. Ela vai aferir a eficácia em pelo menos 10 mil pessoas a partir do final do mês de junho. É o momento decisivo para testar sua eficácia. A vacina é feita a partir de um vírus (adenovírus) atenuado da gripe comum que infecta macacos. Esse vírus serve de vetor para levar ao organismo humano uma cópia produzida em laboratório de uma proteína presente no novo coronavírus. A ideia é que o organismo comece a produzir anticorpos capazes de reconhecer e atacar o vírus verdadeiro em caso de uma infecção real.

A vacina do laboratório Sinovac, parceira do Instituto Butantã, vai entrar na fase três de testes no mês de julho. Rosana Richtmann esclarece que ela utiliza uma tecnologia clássica, já conhecida. A vacina é formada pelo vírus Sars-CoV-2 isolado, multiplicado e inativado no laboratório chinês.

O microbiólogo e virologista Rômulo Neris, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a ideia das vacina é apresentar para o organismo pedaços ou agente infeccioso inteiro antes da infecção para que o nosso sistema imune desenvolva uma memória imunológica e consiga gerar uma resposta mais rápida quando a gente for de fato infectado. A urgência para o combate à covid-19, no entanto, estimula o desenvolvimento de novas tecnologias, como é o caso da empresa de biotecnologia Moderna.

Em parceria com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, a companhia anunciou testes preliminares positivos em ensaios clínicos que começaram em março. Faltam, no entanto, os testes em larga escala, que devem ser realizados em também em julho. A estratégia envolve um segmento de material genético do vírus chamado RNA mensageiro ou mRNA. O RNA (ácido ribonucleico ou uma espécie de “parente” do DNA) também aparece em células humanas saudáveis, mas, em muitos vírus, como o HIV ou o novo coronavírus. As pesquisas tentam modificar o RNA mensageiro e fazê-lo “comandar” a célula para produzir outras substâncias, mais benéficas para a resposta do corpo ao vírus.

Considerando-se o êxito de todas as próximas etapas de testes, especialistas apontam que a vacina da Oxford, a mais adiantada, deve iniciar a produção em larga escala até o final do ano. Isso abriria a possibilidade de disponibilização de uma vacina a partir de abril do ano que vem.

“Trata-se de um cenário otimista”, diz a infectologista Cristiana Toscano. “Além das etapas de desenvolvimento, existem fases importantes de ampliação da capacidade produtiva, como o processo regulatório de registro e licenciamento, política e estratégia de vacinação e distribuição de vacina nos países. Estamos falando de bilhões de doses”, completa a representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) em Goiás e professora do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás.

Cristiana está diretamente envolvida nas pesquisas por uma vacina contra o coronavírus. Ela é única representante da América do Sul a integrar o Grupo de Trabalho de Vacinas para covid-19 do Grupo Estratégico Internacional de Experts em Vacinas e Vacinação (SAGE), da Organização Mundial da Saúde. A especialista terá o papel de revisar, junto com os outros 14 componentes do grupo de trabalho, as evidências disponíveis sobre o progresso das vacinas candidatas contra a doença e definir estratégias e planos sobre o uso acelerado de vacinas (pré e pós-licenciamento).

Rosana Richtmann concorda que as perspectivas apontam para campanhas de vacinação apenas no ano que vem. “Sou otimista e acredito que tenhamos uma vacina eficaz até o final do ano. Ter produção suficiente para a vacinação para a população deve acontecer no primeiro semestre de 2021”.

Testes no Brasil

A vacina que integra a parceria com o Instituto Butantã é a segunda que será testada no País. A outra integra a parceria da Universidade de Oxford (Reino Unido) com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Serão mil voluntários em São Paulo e outros mil no Rio de Janeiro, os dois estados que concentram a maioria dos casos brasileiros.

Rosana Richtmann explica que o Brasil foi escolhido porque a epidemia ainda está em ascensão por aqui, diferentemente do que ocorre no Reino Unido ou na China, por exemplo. “Infelizmente, o Brasil é o melhor lugar para testes de pesquisas atualmente. Na China, os resultados demorariam muito mais”, diz.

O Brasil integra o programa ACT Accelerator, iniciativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) que visa tornar mais rápidos o desenvolvimento, a produção e o acesso a diagnósticos, medicamentos, tratamentos, testes e vacinas contra a covid-19.

ESTADÃO CONTEÚDO

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