quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

'Retorno de sintomas de Covid-19 não significa reinfecção', diz médico infectologista que analisou primeiro caso confirmado no Brasil

André Prudente, médico infectologista e diretor do Hospital Giselda Trigueiro — Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi


Não basta ter "retorno de sintomas" ou novo teste positivo para coronavírus para se afirmar que houve reinfecção da Covid-19. Isso é o que explica o médico infectologista André Prudente, diretor do Hospital Giselda Trigueiro, em Natal, e um dos membros da equipe que analisou o primeiro caso de reinfecção pela doença comprovado no Brasil.

 

Ele ressaltou que muitas pessoas já relataram sentir sintomas mais de uma vez e até tiveram testes positivo para a doença, mas apenas isso não comprovaria a reinfecção. É preciso, no entanto, a confirmação de que a pessoa foi infectada por linhagens diferentes do vírus. Prudente afirma que o caso confirmado foi o primeiro em que todos os protocolos para identificação de uma reinfecção foram seguidos, no país.

A paciente, uma médica de 37 anos, testou positivo para a doença em junho e outubro. Nas duas ocasiões, ela teve sintomas leves. Um exame de linhagem genética confirmou que a mulher foi infectada por duas linhagens diferente do Sars-Cov-2, causador da Covid-19. Ela já está recuperada. De acordo com o médico, há pelo menos seis linhagens conhecidas circulando no Brasil.

 

"Não basta ter retorno de sintomas e ter exame confirmatório. Para ter reinfecção, tem que ser comprovado que foram vírus de linhagens diferentes. É o mesmo coronavírus, mas com linhagens diferentes. Caso contrário, seria apenas uma recaída, uma recrudescência de sintomas", afirmou o médico, comparando a doença à dengue, em que um paciente curado pode ficar exposto às demais linhagens.

 

Para confirmar a reinfecção, são seguidos os seguintes passos:

  • Paciente deve ter doença com 90 dias ou mais de diferença entre as duas ocorrências
  • É preciso ter disponíveis as amostras do teste RT-PCR (recolhidas boca ou do nariz) nas duas ocasiões
  • Os testes são reanalisados e é feito sequenciamento genético para apontar se as linhagens do vírus Sars-Cov-2 são diferentes
  • O caso foi confirmado por serem encontradas linhagens diferentes do vírus

 

O infectologista explicou que mesmo após a "morte" do vírus, partes dele podem ser encontradas nos exames RT-PCR - feitos a partir de amostras colhidas das mucosas, como boca e nariz - até 90 dias depois. Por isso, os protocolos exigem diferença de três meses entre o primeiro e o segundo teste investigados de um mesmo paciente, além do sequenciamento genético.

 

"Já se sabe que as pessoas que adquirem um novo coronavírus podem apresentar sintomas depois e ter teste positivo por até 90 dias, mesmo que o vírus esteja morto. Porque o exame detecta partículas de vírus, que podem continuar no organismo. Por isso é importante o sequenciamento genético", destacou.

 

De acordo com o médico, os exames IGG e IGM, feitos com coleta de sangue, também são insuficientes para comprovar a reinfecção, pois apenas indicariam se o organismo já teve contato com o vírus e produção de anticorpos.

 

"Muitas pessoas podem melhorar e semanas depois voltar a ter sintomas. Isso não é reinfecção, é uma recaída. Na maioria das vezes, não mais pelo vírus. Na verdade, a maior parte dos sintomas não é provocada pelo vírus, mas sim pela resposta inflamatória. A dor no corpo, por exemplo, nada mais é do que os anticorpos atacando as fibras musculares onde havia vírus", disse.

 

Ainda de acordo com André Prudente, a confirmação da reinfecção não é motivo para pânico, mas deve alertar aos cuidados de prevenção. "Mesmo quem já adoeceu deve continuar com as mesmas preocupações como se nunca tivessem adoecido", pontuou.

 

O médico ainda ressaltou que já há casos confirmados no mundo em que pacientes tiveram sintomas mais leves e outros mais graves, na segunda ocorrência. Não seria possível definir um padrão, portanto.


G1

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