O governo decidiu cortar R$ 26
bilhões em seus gastos. Por ordem da presidente Dilma Rousseff, o número está
sendo anunciado em entrevista coletiva pelos ministros Joaquim Levy (Fazenda) e
Nelson Barbosa (Planejamento). O governo quer o retorno da CPMF como forma de
aumentar as receitas e tentar minimizar o aumento de impostos cobrados
diretamente dos contribuintes. A alíquota proposta, de 0,2%, deve gerar R$ 32
bilhões para os cofres do governo, dinheiro que irá abastecer a Previdência
Social. Segundo Levy, o objetivo é que "não dure mais do que quatro
anos".
Levy tentou minimizar o
impacto que o novo imposto terá sobre o bolso dos contribuintes. Ele ressaltou
que a maior parte das medidas depende do apoio do Congresso, que terá de
aprová-las. No caso da CPMF, o governo terá de encaminhar uma Proposta de
Emenda à Constituição. Posteriormente seria editado um decreto normalizando o
tributo. O imposto, explicou, está sendo criado para ajudar nas contas da
Previdência até que medidas estruturantes sejam implementadas.
— Foi considerado que diante
de todas as alternativas de tributo, a CPMF traria menor distorção à economia,
menor impacto inflacionário, seria o mais distribuído. Incide tanto às
atividades de lazer quanto à atividade produtiva. Estamos pagando dois milésimos
do valor que você vai comprar. Você vai comprar um ingresso para o cinema com o
cartão e teria 2 milésimos entrando para ajudar a cobrir o rombo da
Previdência. É uma contribuição provisória — justificou o ministro.
Dilma já tinha decidido
recriar a CPMF no mês passado, mas desistiu da ideia diante da repercussão
negativa no Congresso. O ministro da Fazenda disse que o próximo governo pode
revogar o imposto.
— Nosso objetivo é que a CPMF
não dure mais que quatro anos. A gente está projetando superávit de 0,7% e não
pode continuar com 0,7% a vida toda, terá que ser gradual ao crescimento da
economia. O próximo governo pode revogar a CPMF — afirmou Levy.
Na apresentação das medidas
pelo governo, o ministro do Planejamento disse que o governo já vem, desde
janeiro, fazendo cortes nos gastos do governo. Essa introdução foi uma forma de
justificar os novos cortes e os novos impostos que estão por vir. Segundo
Barbosa, o esforço fiscal já feito pelo governo foi de R$ 134 bilhões, dos
quais 81% com cortes de gastos e 19% com aumento de receita.
A primeira proposta do governo
para reduzir ainda mais os gastos é o adiamento do reajuste dos servidores para
começar a ser pago em agosto de 2016. Com isso, o governo economiza R$ 7
bilhões. Apenas para o funcionalismo do Poder Executivo, o gasto com aumentos
chega a R$ 13,15 bilhões.
O governo também anunciou a
suspensão dos concursos em 2016, gerando uma economia de R$ 1,5 bilhão.
Barbosa também informou que o
governo vai renegociar contratos do governo de aluguéis, segurança, manutenção
e outros serviços, gerando uma economia de R$ 1,6 bilhão no ano que vem.
Os Ministro da Fazenda Joaquim
Levy e do Planejamento Nelson Barbosa durante entrevista sobre cortes nas
contas públicas e aumento de impostos - Ailton de Freitas / Agência O Globo
Além disso, haverá um limite
estipulado com o gasto com servidores com diárias, passagens aéreas, auxílio
moradia e telefone, o que vai impactar em R$ 200 milhões por ano a menos para o
governo. O teto salarial do servidor também será disciplinado, rendendo R$ 800
milhões de economia.
Já com a redução de
ministérios e cargos de confiança o governo espera economizar R$ 200 milhões.
Outra medida tomada é o fim do abano de permanência pago aos servidores que têm
idade para se aposentar, mas permanecem no serviço público, uma economia de R$
1,2 bilhão por ano.
— Não é uma economia elevada
do ponto de vista econômico, mas é economia necessária para melhorar a
eficiência do governo — afirmou o ministro Barbosa.
Os cortes e novas tributações
são parte de um conjunto de propostas preparado pela equipe econômica nos
últimos dias, gerando uma conta de cerca de R$ 65 bilhões. O pacote foi montado
para cobrir o déficit de R$ 30,5 bilhões no Orçamento do ano que vem e garantir
um superávit de 0,7% do PIB.
O governo vai cortar R$ 4,8
bilhões do orçamento de R$ 15,6 bilhões previstos para o programa Minha Casa
Minha em 2016. Mas, em contrapartida, passará a conta para o FGTS. Segundo
Nelson Barbosa, será editada uma Medida Provisória que vai ampliar a
participação do FGTS para todas as faixas de renda do programa. Atualmente, o
Fundo concede subsídio (desconto a fundo perdido no valor do financiamento)
somente para as famílias de mais baixa renda (chamada faixa 2). Na faixa 1, a
moradia é praticamente financiada com recursos da União. Com a medida, o FGTS
poderá financiar famílias com renda acima de R$ 6 mil.
— O governo quer o FGTS
aumente a sua participação nos financiamentos habitacionais em todas as faixas
de renda - destacou o ministro.
Ele também anunciou corte de
R$ 3,8 bilhões no PAC e para evitar que os programas sejam comprometidos, o
Executivo que direcionar aos projetos recursos de emendas de parlamentares. As
obras que vão receber os recursos da emendas impositivas, disse o ministro,
serão escolhidas pelos próprios políticos.
Barbosa informou ainda que os
subsídios para manutenção de preços mínimos dos produtos agrícolas cairá de R$
1,1 bilhão para R$ 600 milhões. As medidas fazem parte do pacote de 09 ações,
que somam corte no orçamento de R$ 26 bilhões.
Os brasileiros que vendem
imóveis também serão tributados a mais. O aumento será escalonado. Quem vende
um imóvel de até R$ 1 milhão continuará pagando uma alíquota de imposto de
renda de 15%. Quem vende imóvel de R$ 1 milhão a R$ 5 milhões pagará uma
alíquota de 20%; para a venda de imóveis de R$ 5 a 20 milhões o imposto será de
25% e imóveis acima de R$ 20 milhões pagarão imposto de 30%. Com isso, o
governo espera arrecadar R$ 1,8 bilhão.
— Todo imposto novo implica
mudanças de hábitos. É difícil estimar exatamente a arrecadação, mas estimamos
que possamos arrecadas R$ 1,8 bi. É uma contribuição modesta, mas guarnece o
conjunto de medidas necessárias — afirmou Levy.
O pacote foi discutido esta
manhã, no Palácio do Planalto, em reunião de coordenação política, da qual
participou a presidente Dilma Rousseff, líderes da base governista no Congresso
e uma vários de ministros.
Na semana passada, Dilma
convocou seus principais ministros para ordenar que seja feito um pente-fino em
todos os benefícios sociais concedidos pelo governo. A ideia é identificar e
estancar fraudes e desperdícios. Um participante da reunião disse que
possivelmente haverá um recadastramento dos beneficiários, para que seja
verificado se todos os que recebem atualmente renda do governo cumprem todas as
exigências.
A crise econômica, que já era
grave, ficou pior na última quinta-feira, quando a agência de risco
Standard& Poor's rebaixou o Brasil, tirando-lhe o chamado grau de
investimento. Reservadamente, a avaliação do Ministério da Fazenda é que a perda
dessa espécie de atestado de país bom pagador acabou reforçando os argumentos
de Levy de que é preciso que o governo corte na própria carne, para dar exemplo
de austeridade fiscal.
O Globo

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