![]() |
Confusão marca início da sessão para votar impeachment de
Dilma na Câmara - Ailton de Freitas / Agência O Globo
|
Após as muitas reviravoltas
que assolaram a política brasileira, da reeleição de Dilma Rousseff à abertura
do impeachment, projetar hoje o cenário eleitoral em outubro de 2018 é uma
temeridade. Mas uma previsão já é possível ser feita: o afastamento de Dilma e
a ascensão de Michel Temer ao poder devem transformar as eleições de 2018 no
pleito presidencial mais aberto desde 1989.
Neste momento, ao menos seis
políticos que tiveram papel relevante nas quatro últimas eleições presidenciais
são pré-candidatos: Lula, Marina Silva, Aécio Neves, Ciro Gomes, Geraldo
Alckmin e José Serra. Em uma pesquisa Datafolha divulgada mês passado que os
incluiu em um mesmo cenário, todos figuram com pelo menos 5% das intenções de
voto. Junto a eles, dois outsiders também pontuam acima desse patamar: o
deputado Jair Bolsonaro e o juiz Sérgio Moro. Mas não é só.
Em Brasília, a avaliação é que
o futuro ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, chega ao governo com o
objetivo de repetir Fernando Henrique Cardoso: recuperar a economia e se eleger
presidente. Isso dependerá, naturalmente, do êxito do governo. E, caso isso
ocorra, outro nome pode entrar na disputa com todo o peso da máquina federal: o
próprio Michel Temer.
Nas últimas semanas, Temer
disse que não pretende disputar a reeleição e sinalizou que apoiará a aprovação
de uma emenda constitucional que acabe com essa possibilidade. Mas é difícil
crer que um político com longa trajetória, que eventualmente caia no gosto
popular, abra mão da Presidência. Nesse cenário, se abre a possibilidade de
ocorrer de fato uma reorganização partidária do país, após 22 anos de polarização
nacional entre PT e PSDB.
Líder das pesquisas eleitorais
mais recentes, o ex-presidente Lula tem várias barreiras pela frente. A
primeira é a Lava-Jato. Para se confirmar candidato, Lula não pode ser
condenado em segunda instância, o que o tornaria ficha suja. Mas seu desafio
maior é político: ao contrário de 2005, quando conseguiu se descolar do
mensalão, a crise da Lava-Jato colou na imagem do líder maior do partido. Prova
disso é que embora conserve cerca de 20% de intenção de voto em qualquer
cenário, sua rejeição supera 50%.
PSDB ENFRENTA DISPUTA INTERNA
Embora seja o único candidato
forte do partido, dentro do PT já se admite a possibilidade de Lula não
aparecer nas urnas em 2018. Dois nomes são apontados como alternativas futuras
por alguns dirigentes. A velha guarda vê no ministro Jaques Wagner, que era
apontado como um candidato forte se o segundo mandato de Dilma fosse um
sucesso, uma opção de voltar ao poder. O prefeito de São Paulo, Fernando
Haddad, é visto como uma alternativa caso consiga se reeleger na capital do
antipetismo. Mas, neste momento, o debate eleitoral futuro é assunto
interditado na legenda:
— Não vamos discutir 2018,
vamos discutir Dilma e Temer. O objetivo é defender a Dilma e fazer o bom
combate contra esse governo ilegítimo, que não dará conta dos desafios que o
país coloca — afirma o senador Jorge Viana (PT-AC).
A outra face da polarização
que domina o país desde 1994, o PSDB também não tem um desafio trivial. Após
longos debates entre os que queriam integrar o governo Temer e os que defendiam
apenas o apoio parlamentar, os tucanos acabaram aceitando ocupar ministérios.
Levaram três: Relações Exteriores, para o senador José Serra (SP); Cidades,
para o deputado Bruno Araújo (PE), e Justiça, para Alexandre Moraes (SP),
secretário de Segurança do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Agora, o
partido tornou-se refém do sucesso ou fracasso do governo. A menos que se torne
a alternativa patrocinada por Temer, como Itamar Franco fez com Fernando
Henrique em 1994, os tucanos terão de explicar à população em 2018 por que são
diferentes da gestão que integravam.
— Temos plena noção de que
vamos ser julgados pelo que fizermos ou deixarmos de fazer. Mas preferimos que
seja assim. É muito mais fácil defendermos nossa opção pela coragem e o risco
do que pela omissão. Embora esta talvez fosse mais confortável — diz o
presidente do partido Aécio Neves.
O segundo desafio tucano é
garantir a unidade, e que ao menos os dois mais fortes presidenciáveis — Aécio
e Alckmin — caminhem juntos no pleito. Hoje, Serra é visto como azarão na
disputa interna tucana e sua saída do PSDB não é descartada caso ele seja
convidado por outra grande legenda para entrar na disputa presidencial. Nas
últimas semanas, Alckmin voltou a defender que ocorram prévias partidárias para
2018. Historicamente, o tema cresce e arrefece no partido, mas nunca saiu do
papel a nível nacional. Aliados próximos de Alckmin, no entanto, minimizam o
risco de racha na legenda.
— Política é jogo de xadrez,
mas um pouco mais complexo. Enquanto no tabuleiro são os jogadores que mexem as
peças, na política as peças também se movem sozinhas. Aquele que demonstrar em
2018 ter a maior capacidade de trazer expectativa de poder será o escolhido —
avalia o deputado Duarte Nogueira (PSDB-SP), aliado de Alckmin.
Diante das incertezas que
pairam sobre PT e PSDB, volta a crescer a avaliação de que um outsider possa
ter força para ganhar a eleição. Nas eleições de 2014, pouco mais de um ano
após os protestos de rua de 2013, que tinham forte veio antipolítico, Marina
Silva — que simbolizava a terceira via — terminou com 21,3%. Quatro anos antes,
havia encerrado a corrida com 19,3%.
Embora tenha chegado a liderar
a disputa, Marina caiu na reta final por uma campanha agressiva da presidente
Dilma Rousseff, mas também por suas fragilidades: ela não conseguiu rebater as
acusações que sofria e seu partido tinha pouco tempo de televisão, única forma
de alcançar toda a população em um país continental. E embora se apresentasse
como alternativa à polarização PT-PSDB, tinha sido ministra de Lula e
pertencido ao PT, o que foi explorado por Aécio para mostrar-se como o
“verdadeiro” candidato de oposição.
Superar essas fragilidades
será novamente o desafio de Marina, que divide com Lula a liderança das
pesquisas mais recentes. Ela deverá novamente ser alvo de ataques de ambos os
lados, já que apoiou o impeachment — o que a afasta dos órfãos de Dilma — mas
não estará ao lado de Temer.
TSE AINDA PODE MUDAR TODO O
CENÁRIO
Desafios semelhantes enfrentará
Ciro Gomes. Igualmente ex-ministro de Lula, ele foi contra o impeachment e seu
irmão comandou a Educação no segundo mandato de Dilma. Ele pertence a um
partido, o PDT, com pouco tempo de TV, e seu temperamento irascível já o
prejudicou em 2002.
Se não bastasse tamanha
incerteza, ainda resta a icógnita se as próximas eleições presidenciais de fato
ocorrerão em 2018. Isso porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve decidir
nos próximos meses se cassar a chapa Dilma-Temer e convoca novas eleições.
O Globo

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Reflita, analise e comente