SUPERMERCADO J. EDILSON: O MELHOR PREÇO DA REGIÃO - Ligue: 3531 2502 - 9967 5060 - 9196 3723

SUPERMERCADO J. EDILSON: O MELHOR PREÇO DA REGIÃO - Ligue: 3531 2502 - 9967 5060 - 9196 3723

domingo, 14 de dezembro de 2025

RN registra crescimento de 23% no número de feminicídios em 2025

O Rio Grande do Norte registrou 21 feminicídios entre janeiro e novembro deste ano, um aumento de 23% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 17 vítimas, segundo a Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesed). Para a delegada Victoria Lisboa, titular da Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher das Zonas Leste, Oeste e Sul (DEAM/ZLOS), o crescimento pode refletir tanto o avanço da violência quanto o maior número de mulheres que buscam ajuda: “Fazemos uma média de 12 boletins de ocorrência por dia”.

“É difícil afirmar a razão desse aumento: não sabemos se se dá porque as mulheres estão sendo mais agredidas ou porque estão procurando mais ajuda”, explicou. Para ela, o movimento revela uma combinação dos dois fatores, impulsionada pela maior visibilidade de casos recentes.

Outro ponto destacado pela delegada é a crueldade crescente observada nos episódios investigados. Segundo ela, não se trata apenas de números maiores, mas de um padrão de agressões mais brutais. “A violência está ficando mais cruel. O modo como os crimes estão sendo praticados tem um caráter muito pesado”, disse ela, que também reforçou que os casos recentes revelam ataques premeditados e insistentes.

A percepção de que a violência é generalizada também preocupa. Victoria afirma que não há um perfil único de vítima: as agressões atravessam classes sociais, bairros e realidades distintas. “Atendemos mulheres de todas as regiões e classes, e o requinte de crueldade não diverge”, afirmou. Segundo a delegada, a ideia de que feminicídios acontecem apenas em contextos específicos impede que muitas mulheres reconheçam sinais de risco.

“Percebemos que mulheres de classes sociais mais altas acabam tendo o receio de fazer a denúncia pelo medo da exposição na sociedade, enquanto as mulheres de classes baixas temem pela não resolução do caso, acabam não acreditando que a denúncia seja uma solução”, explicou.

As medidas protetivas, embora fundamentais, dependem de execuções rápidas para serem eficazes. Victoria enfatiza que a resposta do sistema de justiça — da expedição ao cumprimento — precisa ser imediata. “A celeridade faz toda a diferença”, afirmou. Quando há descumprimento, ela reforça que a comunicação rápida à polícia pode resultar em prisão em flagrante e evitar que o caso evolua para violência letal.

Por fim, a delegada defende que denunciar cedo pode salvar vidas, inclusive nos casos mais graves, que ganham repercussão nacional. “Muitas acham que nunca vai acontecer com elas. Mas acontece”, alertou. Para Victoria, a exposição desses episódios pode incentivar outras mulheres a romperem o silêncio e procurarem a rede de proteção antes que a violência atinja níveis irreversíveis.

Casos continuam a chocar

Em julho de 2025, um episódio de violência de gênero em Natal/RN chamou a atenção de todo o Brasil: Juliana Garcia dos Santos, de 35 anos, foi brutalmente espancada por 61 socos efetuados pelo ex-namorado, o ex-atleta Igor Eduardo Pereira Cabral, dentro do elevador de um condomínio — onde câmeras registraram toda a agressão. O agressor foi preso e tornado réu por tentativa de feminicídio. O caso ganhou ampla repercussão nacional e expôs, mais uma vez, como mulheres seguem vulneráveis mesmo em espaços considerados seguros.

A delegada Victória Lisboa destacou que o caso de Juliana só pôde ser rapidamente esclarecido devido à existência das imagens de câmera, que revelaram a violência extrema e foram determinantes para o enquadramento do crime. “As imagens de câmera foram realmente muito importantes. Aquilo ali, para mim, foi crucial para ser colocado como tentativa de feminicídio”, afirmou. Segundo ela, a obtenção imediata dessas imagens foi decisiva porque “as imagens costumam desaparecer muito rápido”, o que costuma dificultar investigações semelhantes.

A delegada também avaliou que a resposta do sistema de proteção funcionou de forma ágil nesse caso. “Tudo convergiu realmente para auxiliá-la da melhor maneira”, disse, ressaltando que Juliana tem desempenhado um papel importante ao encorajar outras mulheres a denunciar.

No decorrer das duas semanas do mês de dezembro, o país voltou a presenciar mais episódios de brutalidades: em São Paulo, Tainara Souza Santos, de 31 anos, foi atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro pelo ex-companheiro na Marginal Tietê. A violência resultou na amputação das duas pernas da vítima. O agressor, Douglas Alves da Silva, alegou à polícia que “não percebeu” que havia atropelado a ex-companheira, versão considerada incompatível com a extensão dos ferimentos. Ele foi preso e tornado réu por tentativa de feminicídio na última quarta-feira (10).

No Distrito Federal, um caso envolvendo militares expôs uma outra ambientação da violência de gênero: a cabo Maria de Lourdes Freire Matos, de 25 anos, foi assassinada a facadas e encontrada carbonizada dentro de um quartel do Exército na sexta-feira (5). O soldado Kelvin Barros da Silva, com quem a vítima mantinha um relacionamento, confessou o crime e foi preso. A investigação aponta feminicídio com ocultação de cadáver, cometido dentro de um ambiente institucional onde a vítima deveria estar protegida.

O estado de São Paulo também registrou outros episódios de violência extrema recentes. Em um deles, a farmacêutica Daniele Guedes Antunes, de 38 anos, foi morta a facadas pelo ex-marido dentro de casa no domingo (7), reforçando o padrão de ataques letais após o fim de relacionamentos — eles tinham dois filhos, de 18 e 11 anos, e o mais novo presenciou o crime. Em outro caso paulista, Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos, morreu após cair do 10º andar de um prédio; o que foi tratado inicialmente como caso de suicídio, foi dado como caso de feminicídio após imagens de segurança mostrarem agressões do companheiro pouco antes da queda.

Dados do Ministério das Mulheres reforçam a urgência de se tratar o tema. O Brasil registrou no último ano 1.450 feminicídios, além de 2.485 homicídios dolosos e lesões corporais seguidas de morte contra mulheres. A persistência desses números comprova que o país falha tanto na prevenção quanto na proteção, e que romper esse ciclo exige ação imediata, articulada e coletiva.

A dimensão da violência contra mulheres no Brasil em 2025 ganha contornos ainda mais preocupantes quando observada a partir do Mapa Nacional da Violência de Gênero, elaborado pelo Senado Federal. O levantamento mostra que 58% das mulheres que sofreram violência neste ano não procuraram uma delegacia, revelando um índice de subnotificação policial que mantém grande parte dos casos fora das estatísticas oficiais. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher reforça esse quadro ao apontar que 23,6 milhões de brasileiras declaram já ter sido vítimas de violência doméstica e/ou familiar em 2025.

A pesquisa também destaca que a maioria destas agressões ocorreu dentro de relações íntimas, com 62% dos agressores identificados como marido ou companheiro, 11% como ex-companheiro e 8% como namorado. Além disso, os números também apontam que os episódios raramente acontecem sem testemunhas: 71% das agressões são presenciadas por outra pessoa, e, em 71% desses casos, quem presencia são crianças. Segundo o estudo, esse dado evidencia o quanto a violência contra mulheres “ultrapassa a vítima direta e afeta de forma profunda o ambiente familiar e o desenvolvimento das próximas gerações”.

Segundo o mesmo levantamento divulgado pelo Senado Federal, os registros nacionais de segurança pública confirmam, ainda, perfis distintos de vitimização conforme o tipo de crime. A maior parte das vítimas de estupro são meninas de até 17 anos, enquanto os feminicídios atingem principalmente mulheres adultas: 57% das vítimas tinham entre 30 e 59 anos em 2025. Entre os casos de estupro, a faixa dos 18 a 29 anos representa 33% dos registros deste ano, indicando que a violência sexual e o feminicídio atingem perfis etários diferentes, mas refletem o mesmo cenário de risco contínuo para mulheres e meninas no país.

Procuradoria da Mulher: ALRN amplia atuação diante da escalada da violência

No Rio Grande do Norte, o avanço dos feminicídios reacendeu o papel da Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa (ProMulher), criada em 2023 como órgão independente destinado a promover direitos, fortalecer a autonomia feminina e articular ações de enfrentamento à violência de gênero. Com o aumento dos assassinatos de mulheres, o órgão busca reforçar mecanismos de prevenção, acolhimento e interiorização das políticas públicas.

A Procuradoria concentra sua atuação em duas frentes principais: articulação legislativa — com debates, projetos e protocolos voltados à prevenção da violência — e ações práticas que aproximam o Parlamento das mulheres potiguares. Entre essas iniciativas estão a implantação de Procuradorias Municipais, Salas Lilases, campanhas educativas, audiências públicas e parcerias com órgãos como TJRN, MPRN, OABRN e instituições de saúde e educação. O fortalecimento das ações nos municípios também se tornou prioridade diante das limitações de acesso a serviços especializados no interior.

Além das medidas em andamento, o órgão aposta na educação como estratégia de longo prazo para a redução da violência. Um dos principais projetos em execução é o Maria da Penha vai às Escolas, que trabalha letramento de gênero com adolescentes da rede pública. “Quando levamos o debate para dentro das escolas, plantamos sementes de respeito que protegerão as mulheres do amanhã”, afirma a deputada Cristiane Dantas.

 Tribuna do Norte

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Reflita, analise e comente