sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Padre investigado por furto de objetos litúrgicos em Currais Novos guardava fósseis de 112 milhões de anos

Sessenta e oito fósseis que pertencem a um museu do Ceará foram encontrados com o padre Márcio de Lima Pacheco, investigado por roubo de artigos religiosos da Capela Santa Tereza D’Ávila, que fica na Mina Brejuí, em Currais Novos, Rio Grande do Norte.

O material foi encontrado pela Polícia Civil do RN durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão, na quinta-feira (12), nas residências do suspeito, em Currais Novos e Natal, onde estava exercendo suas atividades. Os fósseis serão encaminhadas à Polícia Federal nesta sexta-feira (20) e os itens religiosos foram reconhecidos pelos funcionários da capela.

 

O furto incluiu um crucifixo de duas faces, seis castiçais, dois jarros de prata, um missal em latim, um véu de ombro e quatro toalhas de altar. Além da subtração dos objetos, outros foram substituídos por um de qualidade inferior, como três batinas e um Ostensório.

De acordo com o paleontólogo doutor em Oceanografia Álamo Saraiva, os fósseis são de peixes e plantas da Formação Romualdo, Bacia do Araripe, e têm idade aproximada de 112 milhões de anos – da fase marinha da bacia.

 

Álamo é coordenador das escavações paleontológicas na Bacia do Araripe e curador do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens da Universidade Regional do Cariri (Urca), em Santana do Cariri. Ele recebeu a notícia do furto com estranheza, garantindo que as peças pertencem ao Centro de Pesquisas Paleontológica da Chapada do Araripe (CTCA).

 

Também conhecido como Museu de Fósseis ou Museu do Crato, a instituição pública federal localizada na cidade de Crato é responsabilidade da Agência Nacional de Mineração, foi fundada em 1988 e está fechada desde setembro de 2020.

 

O diretor do Museu, Artur Andrade, confirmou “categoricamente” que o material pertence à bacia cearense e saiu do CTCA. Andrade disse ainda que não se recorda de ceder material para qualquer padre ou pessoa que não seja um pesquisador.

 

“Quando se cede material fóssil tem todo um protocolo e é para instituições que trabalham na área ou para museus, colégios… Foi surpresa para mim e para nós aqui a presença do material nessa apreensão”, declarou.

 

“Não sei de que forma esse material saiu das nossas dependências. Como, eu infelizmente não sei. O escritório está fechado, mas digo que no início dos anos 2000 passou por reformas, nós tínhamos depósito e alguém pode ter pegado. Estou dizendo isso no campo da suposição; eu não posso afirmar. Também não sei a resposta do padre à polícia. Estou me manifestando de forma não oficial. Precisa ainda de uma posição oficial por parte da ANM”, completou.

 

O professor Álamo também demonstra curiosidade em saber o modo como o furto ocorreu. “Como é que esses fósseis foram parar na casa de um padre?”, questionou, dizendo estar exausto de crimes e irregularidades que acometem sua área de pesquisa.

 

De acordo com o especialista, da bacia do Araripe saem cerca de 92% de todo o gesso do Brasil, além da pedra cariri (calcário laminado), bastante usada na construção civil e artesanato, considerada a formação geológica mais rica em quantidade e diversidade de fósseis.

 

“Eu já estou cansado dessa guerra. Eu queria mesmo era só viver fazendo Paleontologia, mas todo dia eu sou surpreendido com coisas desse tipo, as mais esdruxulas. Eu não sei nem o que pensar disso”, reclamou lembrando de recente apreensão da de fósseis realizada pela Polícia Federal, avaliada em 500 mil euros.

 

Polícia Federal entrega fósseis a universidade

 

Quase 300 fósseis apreendidos na “Operação Santana Raptor”, realizada desde 2017 pela Polícia Federal, foram repassados à Universidade Regional do Cariri (URCA), nesta quarta-feira (18), em solenidade que contou com participação do Ministério Público Federal (MPF), Superintendência do Geopark Araripe e a direção do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens.

 

As peças são de peixes, libélulas, escorpiões e até pterossauros, répteis voadores do período Mesozoico. O material ficará sob a salvaguarda do Museu e poderá ser disponibilizado para pesquisas científicas. Atualmente, o equipamento desenvolve a campanha permanente Lugar de Fóssil é no Museu.

 

A Polícia Federal informou que os fósseis são oriundos das cidades de Santana do Cariri e Nova Olinda e geralmente são encontrados por “peixeiros”, pessoas que fazem extração de pedra calcária.  Pelo menos seis pessoas devem ser indiciadas pelo tráfico das peças, entre elas empresários, atravessadores, trabalhadores de pedreiras e servidores públicos. As peças seriam vendidas em outros países, mas não saíram do estado.


Saiba Mais Agência Reportagem

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