Mergulhado numa das piores
recessões de sua história, o Brasil está paralisado por uma intrincada crise
política que pode levar a uma troca de governo. Como resultado, o desemprego
aumenta mês a mês e há um número crescente de negócios fechando as portas.
Para completar, analistas
políticos ressaltam que, se a presidente Dilma Rousseff for de fato afastada, a
lista de "incertezas" sobre um eventual governo do vice Michel Temer
(PMDB) ainda é grande. Vai desde o processo que pode resultar na impugnação da
chapa Dilma-Temer no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) até a baixa popularidade
do o peemedebista (segundo o Datafolha, 58% da população aprova seu
impeachment).
Mas quem olhava para os
números do mercado financeiro brasileiro na contagem regressiva para a votação
do impeachment na Câmara – e agora para a do Senado – pode ter a impressão de
que os investidores e operadores estão enxergando o país sob outra perspectiva.
Desde o início do ano, a Bolsa
brasileira subiu mais de 20% em reais – e 38% em dólares. Ou seja, as ações das
empresas brasileiras subiram.
O real também se valorizou
recentemente frente à moeda americana, com a cotação caindo de R$ 4 por dólar,
em janeiro, para algo em torno de R$ 3,50 hoje. Foi a segunda moeda que mais
subiu no mundo no período, atrás apenas do kwacha zambiano.
"E com o impeachment
passando na Câmara, avaliamos que o dólar pode chegar até a R$ 3,20 já nesta
semana", diz Raphael Figueredo, analista da Clear corretora.
Mas, afinal, por que o mercado
parece tão animado em meio a decisão sobre o afastamento de Dilma? E como a
aprovação do impeachment pela Câmara pode impactar a cotação do dólar e a
Bolsa?
Fator externo
Para começar, segundo
analistas consultados pela BBC Brasil, ao menos parte da explicação para a
melhora recente das perspectivas dos investidores sobre o Brasil vem de fora,
não de dentro das fronteiras do país.
"Há um cenário mais
favorável para os emergentes em todo o mundo", diz André Perfeito,
economista-chefe da Gradual Investimentos. "A bolsa colombiana, por
exemplo, também subiu 18% desde janeiro e a da Turquia, 19%."
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Nos últimos meses, os Estados
Unidos vêm dando sinais de que devem demorar mais do que o esperado para
começar a apertar sua política monetária – o que tem favorecido a
desvalorização do dólar frente a outras moedas.
"Também há uma alta dos
preços das commodities que favorece os emergentes. E o petróleo se recuperou um
pouco, passando do patamar dos US$ 30 para os US$ 40", explica Wilber
Colmerauer, diretor do Emerging Markets Funding, em Londres.
Mauro Schneider, economista da
MCM Consultores, concorda que os fatores externos têm sido relevantes, mas
ressalta que "ainda é, sem dúvida, o cenário local – e em especial, a
perspectiva de um fim do governo Dilma – que prevalece como fator de impulso
aos mercados".
Ele diz que os analistas há
algum tempo já estavam apostando que o impeachment passaria na Câmara e esperam
que sua aprovação seja mais fácil no Senado (onde é necessária uma maioria
simples para que a presidente seja afastada de suas funções por 180 dias,
enquanto aguardaria o julgamento final pela Casa).
"A sensação geral (nos
mercados) é que qualquer coisa é melhor que o atual governo", diz
Schneider.
"Espera-se que, mesmo sem
conseguir passar reformas estruturais no Congresso, um governo Temer possa ao
menos tomar algumas medidas que melhorem as expectativas sobre a economia. Por
exemplo, anunciando nomes bem vistos (pelo mercado) para a Fazenda e Banco Central;
ou avançando na costura de acordos comerciais e nas concessões."
Recuperação
Há quem veja a melhoria dessas
percepções sobre o cenário brasileiro com mais cautela.
Para Colmerauer, por exemplo,
os ativos do país estão experimentando, na realidade, "uma pequena
recuperação" depois da grande queda sofrida desde o fim de 2014 e início
de 2015.
"Desde outubro de 2014,
só tivemos más notícias na economia e na política. A Bolsa brasileira chegou a
cair 70% em dólar. Então é preciso considerar que a subida parte desse ponto
mais baixo", diz ele.
"Não sei se podemos falar
em 'animação' do mercado com a possibilidade de um impeachment. A questão é que
um afastamento da presidente representaria no curto prazo alguma esperança de
melhoria, ainda que ninguém espere que seja o ponto final da crise."
"O mercado está disposto
a dar a ele um voto de confiança, espera que o vice seja uma espécie de Itamar
(Franco) que fez um bom governo de transição. Mas é certo que, se Dilma de fato
for afastada, ele precisará agir rápido, aprovando medidas que mostrem, por
exemplo, que está comprometido com o ajuste fiscal. Porque essa lua de mel
também pode acabar rapidamente."
Carlos Melo, cientista
político do Insper, segue na mesma linha: "O mercado vive de humor, de
curto prazo. Você compra hoje esperando uma coisa e, se não der certo, vende
mais tarde. Por isso um melhor termômetro das expectativas de médio e longo
prazo sobre o país são os investimentos diretos na economia. E esses não estão
crescendo", diz.
Reações
Quanto às expectativas sobre
uma reação dos mercados ao resultado da votação deste domingo, os especialistas
se dividem.
Para Colmerauer, como a
aprovação do impeachment na Câmara já estava precificada, é possível inclusive
que nesta segunda-feira a Bolsa se mantenha estável.
"E ao longo dos dias até
caia, conforme aumentem as especulações e notícias sobre as dificuldades que um
eventual governo Temer terá pela frente. Passada a comemoração será a hora de
pensar nos problemas", diz ele.
Para Figueredo, da Clear
Corretora, e Schneider, da MCM Consultores, a reação seguramente será positiva
– com uma alta da Bolsa e do real.
É esse tipo de reação faz com
que os mercados financeiros sejam frequentemente acusados por economistas
heterodoxos e figuras ligadas ao Planalto de "jogar contra" o governo
para pressionar por políticas ortodoxas (que seriam de seu interesse porque lhe
renderiam mais lucros com juros sobre títulos do governo).
Na estimativa da consultoria
Tendências, por exemplo, com Dilma o dólar chega ao fim do ano a R$ 4,43. Sem
Dilma, a R$ 3,72.
Segundo Figueredo e Schneider,
porém, a reação dos mercados à votação da Câmara pode variar de acordo com a
interpretação sobre o placar da votação, que foi 367 (a favor do impeachment) a
146 (contrários, abstenções e ausências).
"Se o mercado interpretar
que o impeachment venceu com mais folga do que era esperado, a Bolsa tende a
subir mais, porque isso será visto como um sinal de que Temer terá mais apoio
para governar", opina Figueredo.
BBC

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